Amadáin?*
Torço para a República da Irlanda no futebol (e, por consequência, em outros esportes) desde a Eurocopa de 1988.
Vou daqui em diante chamar de Eire. Sei que desde a década de 1960 não é mais o nome oficial, mas é muito mais divertido sendo gaélico (ainda aparece Éire nas camisas, ainda fico emocionado com isso).
E é claro nome de uma música do 1º álbum da melhor banda irlandesa da história, o Thin Lizzy.
De lá, considero demais os Horslips, banda prog folk de altíssimo nível, mas bem desconhecida, como o Mellow Candle.
E também o guitar hero Rory Gallagher, que, além do Taste (muito legal), teve uma carreira e solos incríveis, mas rejeitou os Rolling Stones por ser o Rory Gallagher – extremamente tímido longe de um palco (parece até alguém que conheço).
Não vou misturar com os irmãos britânicos (a divisão geopolítica mais estúpida da humanidade) do Norte, terra dos pra lá de geniais(iosos) e encrenqueiros Van Morrison e Gary Moore – este, outro guitarrista incrível, com ótima voz e ego gigantesco. Mesmo intermitente, foi o melhor parceiro musical do Philip.
Parisienne Walkways (nunca vai deixar de arrepiar), Spanish Guitar, Military Man, Out in the Fields, as primeiras versões de Still in Love with You. E o álbum Black Rose. Gary Moore também se foi muito cedo, enquanto negociava vir para cá. Tudo só reforça o que escrevo.
É sobre futebol, rock escrevo daqui a pouco.
Sempre fui fã da torcida sensacional, com canções que aprendi de cor. E me identifiquei com a garra de jogadores que nunca desistem(iam) e sempre fazem(iam) jogo duríssimo contra times muito mais badalados, para os quais não tem a mínima graça torcer.
É aquela chama de superação, de passar por cima das limitações, de nunca se entregar e se unir como uma força bem difícil de ser batida.
Nunca foi nem será campeão. Mas, sim, dificilmente era vencido. Empatava muito, claro. Mas nem era tão fraco tecnicamente assim.
Roy Keane é um tremendo mau-caráter, mas jogava muito. Organizava o meio de campo como poucos; e, num raro gol, tirou título mundial de outro time verde e manteve a piada.
Robbie, que durante muitos anos pensava tolamente que fosse irmão, era um centroavante bastante rápido e oportunista. Maior goleador da história da seleção, sempre será lembrado com carinho.
Assim como os ídolos da minha fase final de infância/início da adolescência, boa parte da equipe que chegou às quartas da Copa de 1990 empatando com todo mundo: Paul McGrath, Andy Townsend, Roy Houghton, John Aldridge, Ronnie Whelan (autor do 2º maior golaço, vídeo acima, da história das seleções, o maior foi no mesmo torneio), Pat Bonner (apesar do frangaço), Mick McCarthy, Dennis Irwin, Gary Kelly, David O'Leary, Tony Cascarino...
Times do inesquecível, folclórico e sempre retranqueiro Jack Charlton.
Fez com o Egito a pior das piores partidas. Tão ruim que até hoje é lembrada - e até hoje me lembro dessa coisa.
A geração de 2002 era inferior, mas além dos Keanes tinha bons e muito aguerridos nomes: Given, Damien Duff, Kilbane, Holland, Harte, McAteer, Finnan. Com Staunton e Quinn ainda de 1990, unindo ambas.
Muita saudade de acordar às 3h30 para assistir a um joguinho muquirana contra a modinha (da época) Camarões. Mas não perdemos, claro. E a festa contra a pior seleção da história das copas (só assim para fazermos mais de um gol...)? E os gols nos acréscimos? Doeu demais nos pênaltis, mas fui de camisa verde passar em um concurso no mesmo dia.
(Só de lembrar e pesquisar os vídeos para colocar os links me faz chorar...)
Alguns anos e outras decepções, muita frustração e ódio em 2009 no Saint-Denis. Nunca perdoarei – e o futebol nunca o perdoou, pois nunca mais jogou nada depois daquela fraude. Iríamos ser derrotados nos pênaltis, mas sequer tivemos chances de chegar lá. E é claro que perdemos um gol feito ainda no tempo normal, quando estava 1 a 0.. .Jogamos muito bem, foi uma das últimas vezes que senti isso. Orgulho, sempre! A copa (horrorosa jabulani) nos perdeu, não o contrário.
Em 2016 (2012 foi dose), a última tentativa de esperança e alegria, com um time novo, mas ainda bem razoável, que conseguiu bater os reservas da Itália. E fez jogo duro contra a França, mesmo com um a menos.
Perdíamos, claro. E sempre perdemos muito, para Holanda, França, Itália, Bélgica, Espanha, Alemanha (foi só 6 a 1)... Mas eram jogos duríssimos, sempre dava orgulho. E de vez em quando ganhávamos, E ganhávamos! E ganhávamos!
De lá para cá, só desilusão. Acabou, virou uma bagunça, times e técnicos fraquíssimos. Sem rumo, sem disciplina tática, sem vontade de ganhar. Queda para o lixo da Escócia de virada. Duas seguidas para minha querida Grécia (outro dia, posto sobre 2004), que não deixam de ser duas seguidas para minha querida Grécia...
Pensei que o fundo do poço seria Luxemburgo em 2021. Sábado o vexame foi menor, mas muito mais doído e simbólico.
Dois ingleses, de origem irlandesa, que começaram a carreira internacional pelo Eire, vaiados o tempo inteiro, pelo nojo da Inglaterra fizeram dois gols em menos de meia hora. E no resto do jogo só tocaram a bola.
Eles são muito bons, agiram com a razão. São consagrados em seus times, escolheram o pais onde nasceram. E vão jogar muitas outras copas e euros (ganhar é outra história..), enquanto no Eire muito provavelmente não iriam a lugar algum. Mas estar com o Eire é estar longe da razão, é refletir sua alma loser, é manter a dignidade, a altivez e o amor próprio e a seu país não importando o resultado.
Para piorar, era um time treinado por outro inglês, mas que optou e jogou pela Irlanda em 2002 (Carsley). Era até bom, mas era reserva,,,
Quase todos os meus antigos ídolos que citei eram ingleses, mas aceitaram jogar pelo Eire. E pelo Eire venceram a Inglaterra no 1º jogo, na 1ª competição...Hoje é o oposto, não sei até quando vai parar de machucar.
Conhecer e apreciar a cultura irlandesa é sentir, no fundo, uma história de dor e derrota. Com muito charme, doçura e poesia. E cabeça erguida. Mas sempre dor e derrota.
E sou tão loser quanto, a ponto de eu ir para lá por ser fã do Thin Lizzy (por pura coincidência, a mais subestimada) e de seu líder/cantor/baixista/poeta, que, além de inglês, era uma coleção infindável de fracassos fora dos palcos (dentro era f. de tão boa).
E como Cúchullain, citado no melhor épico celta como seu amigo boleiro (do Norte...), Philip se foi de forma estúpida e breve como todo mito celta loser.
Nem um filme furreca para a RTÉ foi feito sobre o Philip. Sei de muitas histórias – em grande parte deliciosas, doloridas, belíssimas e inacreditáveis – que dariam séries com 20 temporadas. E com ótima trilha sonora.
A persona do Philip é muito mais icônica, rica e triste que a do Freddie. Daria ótimos crossovers com a turnê abrindo para o Queen nos EUA em 1977 (com Gary Moore substituindo Robbo em um dos eternos perrengues que a banda passou). Só aquela foto por volta de 1978, em algum aeroporto, Queen, Black Sabbath e Van Halen daria um tremendo filme.
É claro que essa presepada toda da viagem/homenagem ia dar errado, e como deu... Fui irish mané, surtei como loser of losers, passei mal, passei vexame, sequer vi a estátua e retornei em menos de um dia, tomando o pior café da vida. Na volta, joguei muitas lembranças e muita esperança fora (menos meus CDs, claro), mas não deixei de ser fã, como fiel loser.
Espero nunca mais escrever sobre isso, é vergonhoso demais. Melhor voltar para o futebol.
Concluindo.
Doeu em 1988. Doeu em 1990. Doeu em 1994. Doeu em 2002. Doeu em 2009. Doeu em 2011 (sem comentários). Chorei (muito, de orgulho) em 2012, v. abaixo . Doeu em 2016. Hoje nem sei mais o que é dor com esse time.
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